2008/09/11

RIO2020

Vale a pena salvar o Gasômetro?

Avança rapidamente a demolição do segundo tanque do Gasômetro, em São Cristovão.
Do total de três tanques, um já foi demolido, o segundo está em rápido processo de desmontagem.
Estas estruturas são raros exemplos do passado industrial do Rio e ficaram obsoletas com a passagem para o sistema de distribuição de gás que reduz drasticamente a necessidade de reservação.
A mudança tecnológica é perfeita: é mais eficiente, mais econômica e, principalmente, mais segura.
Os grandes tanques que armazenavam gás, apesar de seguros e de nunca terem causado maiores transtornos, pelo simples princípio da reservação representavam risco.
Por tal motivo inclusive foram alvo de maquinações conspiratórias no período da ditadura militar, cujo plano de explodi-los e responsabilizar a guerrilha levou o Capitão Sergio Miranda de Carvalho, do Para-Sar, a negar o cumprimento da missão. Este foi afastado da Aeronáutica, dado como louco. Somente muito tempo depois houve certo reconhecimento deste ato heróico. O episódio ficou conhecido como Caso Para-Sar, ou Atentado ao Gasômetro.
Além deste aspecto simbólico da vida política carioca e brasileira os tanques são belas estruturas metálicas montadas em princípios do século XX, quando da criação da Fábrica de Gás, em área de aterro que definiu o perfil atual da Região Portuária, em 1901. Com tamanhos médios de 50 metros de diâmetro por 50 metros de altura os tanques estão presentes na paisagem urbana da região e na paisagem da cidade como vistosos elementos que anunciavam a urbanidade, a prosperidade industrial, situados na "entrada" da cidade, papel que era atribuído à Avenida Francisco Bicalho.
Tal força e presença, é referência urbana até hoje, a ponto, por exemplo, de ter influenciado claramente o arquiteto francês Jean Nouvel, quando da sua primeira visita ao Rio para conhecer a área de implantação do Museu Guggenhein, que ficou estupefato com tais elementos a ponto de propor, no museu, um outro tanque, de mesma proporção, em alusão direta aos tanques do Gasômetro e, segundo dele, deste modo, pontuar as duas extremidades da região portuária com estes elementos.
Pois bem, avança rapidamente a desmontagem do segundo tanque. Parece que logo não haverá registro destes elementos que nos recebe na cidade e que convivemos há mais de 100 anos.
Este passado industrial do Rio terá sido tão inócuo há ponto de não mais querermos nos lembrar dele?
Vemos no mundo, belos exemplos de manutenção destes elementos na paisagem urbana, reconvertidos em outros usos, cinemas, habitação, teatros, lojas, inclusive vazios, como grandes elementos cênicos urbanos e festivos, marcando áreas livres de belos parques em áreas industriais abandonadas.
Preocupação maior que o desaparecimento destes elementos é saber que bela arquitetura poderá ser construída ali: um exemplar neo-neo-neoclássico, ou um mais um shopping inodoro, insípido e asséptico?
Quem pode proteger o Gasômetro e assim proteger um pedacinho da nossa história? Quem pode?

2008/07/24

Salvem as praças! Salvem-nos de nós mesmos!

Salvem as praças! Salvem-nos de nós mesmos!


http://www.novaiguacu.rj.gov.br/ver_noticia.php?codNoticia=1907




Por que recuperar praças?

Mais do que recuperar o espaço público, é urgente recuperar o convívio no espaço público.

Orientar, desenhar e planejar o espaço público para as crianças, os jovens e as famílias. Entendendo como são as crianças, os jovens e as famílias de hoje. A condição contemporânea destes usuários.

Não estamos mais no século de XIX do flaneur pela cidade, do maravilhamento com a cidade. Não se contempla mais a cidade. A cidade nos contempla. A cidade converteu-se em opressora e desumana. Pela falta de planejamento, pela falta de idéias e pela omissão pública.

Com a perda de sentido do espaço público as pessoas buscam refúgio e convívio no espaço privado - veja o sucesso, em escala nacional, do evento casa cor; a sofisticação das áreas de uso comum nos lançamentos imobiliários; a oferta, cada vez mais rica e complexa, de atividades em "espaços privados de socialização", os shoppings, os centro culturais, que mesclam, sedutoramente, cultura, comércio e ócio.

A sociedade da informação, que no Brasil, é também paradoxal, também cria um novo campo de complexidade, que tem rebatimentos no território.

Somos quinto lugar no mundo em acesso a internet, com 21,9% da população acessando a internet (32,1 milhões de usuários), apesar da relação de usuários da rede em comparação ao restante da população não-usuária ser das mais baixas - somos 62 o. lugar no mundo em acesso proporcional à população total (os dados não podem ser precisos pela dificuldade de pesquisa, mas seja pelo IBGE, seja pelo IBOPE, os dados revelam a dicotomia entre grande quantidade de usuários mas baixa proporção em relação a população geral - os dados citados são do PNAD 2005 IBGE).

Esta parcela de internautas já convive socialmente em um outro território, virtual, seja usando os recursos de mensagem on line; seja pelos sites de rede social como orkut (que foi dominado pelos brasileiros), myspace, facebook, etc; seja pela proliferação de lan-houses nas comunidades carentes, ofertando além do acesso a internet, a possibilidade dos jogos on line, da interação on line, da liberdade da autoridade; seja pela extrema sedução dos games, cada vez mais interativos (o Nintendo wii, pelo revolucionário modo de jogar, por interação corporal, está sendo utilizados por fisioterapeutas e em asilos de idosos nos EUA. Também nos EUA, a indústria de games já é segunda indústria do entretenimento, já muito próxima economicamente da indústria do cinema).

Estamos assistindo, participantes ou não, de um novo modo de construção de interações, de convívio, de encontros, de montagem de redes e de diálogos. E em escala, da construção de uma nova psique. Um novo ego.

Como chamar a atenção desta nova mente infantil e juvenil para o espaço público?

Através de espaço ativos, dinâmicos e interativos, onde o design surge como construção de possibilidades e não mais como formalizador de soluções. Um espaço aberto a interação, sedutor e acolhedor.

Esta tem sido nossa experiência em Nova Iguaçu com o Programa Praça-Escola, propondo articulação em rede das praças com as escolas, e desenhando brinquedos e mobiliário urbano interativos.

É urgente entendermos nosso tempo para termos propostas precisas para o tema do resgate do uso do espaço público.

Salvar nossas praças, salvar seu uso, é salvar o nosso potencial como sociedade democrática. É proteger o futuro. É investir na civilização brasileira.

É salvar-nos de nós mesmos.


Washington Fajardo

2008/07/12

manifesto

MANIFESTO RIO 2020
ou O RIO DE CAROL, ANTONIO E NINA


Está diante de nós mais uma eleição municipal. Mas esta não é simplesmente “mais uma” eleição. Esta será a mais importante eleição municipal dos últimos 12 anos.

Pois esta será a eleição na qual decidiremos se vamos em direção a uma cidade melhor ou se vamos em direção a barbárie.

Tal constatação, não é um alerta característico das estratégias das políticas do medo, mas uma avaliação estatística dos fatos - violência, má administração pública, omissão política, má-fé política - que povoam as páginas de jornal. Tal constatação torna-se pior ainda quando analisamos este conjunto imenso de fatos pela lente do modelo vacilante de cidade com o qual lidamos cotidianamente.

Este modelo de cidade, esta presença sutil, esta alquimia, de domínio exclusivo, controlada pelos arquitetos e manobrada pelos políticos, impõe um cotidiano e dele se alimenta, num círculo vicioso.

O trânsito que não flui, os deslocamentos desumanos, a perda de qualidade do espaço público, “a” perda de espaço público, a favelização acelerada, a deterioração da infra-estrutura, o esvaziamento do centro, a dengue que cresce nos terrenos baldios e no lixo, o patrimônio histórico destruído, a valorização imobiliária injusta e desregrada, a desordem urbana, as leis inúteis, os camelôs, a imensa demanda da rede hospitalar, a falta de leitos, a falta de vagas nas escolas, o esvaziamento econômico, a perda de oportunidades, são os aspectos mais concretos deste modelo caduco, cuja face menos óbvia - e não tão diretamente associada à questão urbana - são a violência, a insegurança, o medo, o stress, a paranóia, a neurose, a doença, a corrupção, a feiúra, e, a mais temerosa, a apatia.

Não associamos estes problemas ao modelo urbano escolhido por nós, ou através de nós - não alcançamos o impacto das decisões urbanísticas pelo tempo longo no qual elas se impõem - e não percebemos quando exatamente a vacina passa a ser doença. Problemas cujo modelo de cidade deveria corrigir, ao falhar, ou ao ser inócuo, no tempo, geram problemas maiores que aqueles para o qual foi ensaiado.

Possuímos uma compreensão imediata, sensível sócio-economicamente para o cotidiano e suas mazelas. Observamos a miséria, sentimos a pobreza, atentamos para a corrupção e a violência, mas quando, nas eleições municipais, não entendemos a mensagem da oferta urbanística que nos é feita, não percebemos o tempo longo em que serão construídas, sob, sobre e dentro de nós, ficamos a mercê destas decisões. Somos conduzidos. E nestes hiatos de eficiência e falência, de sucesso e fracasso, constroem-se relações baseadas na desordem, interesses baseados no caos e na ausência da razão.

O sonho da razão produz monstros.

E a monstruosidade avança folgadamente, e fogosamente, pela cidade.

Mas também não existe um mentor diante do caos consagrado. Mas um conjunto de interesses dispersos, cuja articulação rompe, através da normalidade, e pelos meios legais, a esfera do privado e alcançam status público. É assim na desordem urbana e na permissão da gestão municipal, é assim no caos do transporte público e na omissão dos agentes fiscalizadores, é assim também, terrivelmente, nas manifestações de violência e na constatação concreta do terror instaurado e do abandono da cidade.

É imperioso compreendermos nossa relação com o lugar.

Aqueles cujas histórias familiares remetem à vida no interior, digo isso sem bucolismos, compreendem a idéia de mescla do tempo de vida com o tempo lugar.

Pois nosso tempo é urbano. Tem pressa e pode nos devorar. Precisamos (nos) entender.

E este é nosso momento na história.

Temos, na nossa família, nas nossas mentes, nos nossos corpos, uma conjunção intrínseca com nosso território, com a cidade que escolhemos para viver. Esta mescla é imperiosa à grande maioria - excetuam-se aqueles que possuem grande capacidade de mobilidade, cujo território passa a ser mais global: os mais ricos, a elite, e que por isto mesmo perdem a capacidade de apontar novos rumos, inebriados que estão por uma cidade maior: o planeta.

(Há que se desconfiar sempre dos políticos que muito viajam).

O modelo de cidade que nos foi proposto há três gestões atrás, há doze anos, caducou.

Uma gestão inicialmente afrontada por arquitetos e idéias urbanas converteu-se em vazios imensos, edificados na ruína da perda de sentido da transformação real, estrutural, para um simples jogo global. Para uma cidade ineficiente povoada de imagens esmaecidas de uma transformação contundente que deveria ter sido mas não foi.

Estamos hoje na terceira divisão das cidades globais.

Perdemos a oportunidade de promover melhorias estruturais na cidade quando dos Jogos Pan-americanos. Não houve melhoria nenhuma na rede de transporte público. Não houve melhoria na rede hospitalar. Não fluímos melhor pela cidade. Não construímos pontes entre territórios partidos. Não apontamos hoje para um horizonte melhor de cidade, pelo contrário.

Inegável, temos hoje melhores equipamentos esportivos. Mas por que não se aproveitou as oportunidades e o ambiente de recursos? Por que não fizemos História? Mas ouvimos muitas estórias...

Esta trajetória, iniciada há 12 anos atrás, há três gestões municipais, descreveu no tempo um arco balístico, cujo ápice, ou cume, o Pan, foi medíocre. Na escala do helicóptero, ou dos governantes, o Engenhão é belíssima obra, mas na escala do pedestre, a população, não basta ser morador do engenho de dentro, basta dar uma volta no quarteirão do estádio para perceber a total perda de qualidade daquele ambiente.

Repetimos, acintosamente, mesmo depois de estudos, teses e saberes adquiridos, o mesmo erro quando da abertura do Sambódromo: destrói-se uma localidade em prol de uma obra magnânima.

Por que, mesmo depois de 12 anos de Programa Favela Bairro, ainda temos na favelização um problema crucial da nossa cidade? Será que fomos a fundo na questão? Quantas comunidades receberão a propriedade dos seus imóveis?

Essa trajetória balística de 12 anos hoje cai vertiginosamente sobre nossas cabeças tal qual bala perdida.

Por que esta dicotomia? Por que se perdeu a oportunidade de uma transformação real em troca da construção de cenários? Porquê a transformação real implica em planejamento melhor, em mais democracia, em melhor ambiente técnico, e menos político e, consequentemente, numa visão politicamente obtusa, na perda de status quo.

Basta observar o intenso tráfego de políticos a Bogotá e Medellín, na Colômbia, pois lá se comprovou o contrário: houve melhoria real promovida pelo poder vigente.

A real transformação implica em colocar outros horizontes em foco: pautar a mudança da cidade física pela mudança da vida das pessoas, nos seus aspectos de menor escala: a rua, a praça, a escola, o hospital.

Referenciar a mudança pensando nas crianças.

Temos hoje uma cidade boa para as crianças? Teremos em 2020?

As eleições deste ano podem dar início a um novo arco no tempo de 12 anos. Um novo ciclo.

Que cidade teremos em 2020?

Até lá teremos novamente mais dois grandes eventos: a Copa do Mundo de 2014 e, talvez, as Olimpíadas de 2016. Seremos capazes de produzir uma cidade melhor a partir destas novas oportunidades ou cometeremos os mesmos erros? Essa decisão também se inicia nas eleições deste ano.

Estes eventos são novamente oportunidades para a criação de um ambiente de excelência: econômico, político e técnico.

Seremos capazes de produzir a real transformação?

Seremos capazes de produzir um Rio em 2020 melhor para nossas crianças?

Esta é “a” decisão que estas eleições nos trazem: imagens ou vida real, slogans ou crianças?

Esta é medida das ações urbanas. Este é o tempo da cidade. A decisão de hoje implicará numa realidade, boa ou ruim, no futuro.

Tenho em casa três crianças: Carol, minha querida enteada, meus filhos Antonio e Nina. No Rio de 2020, Carol, terá 22, Antonio, 14 e Nina terá 12. Terão eles crescido em uma cidade melhor? Terão eles na cidade um ponto de referência da democracia, do convívio entre diferentes? Terão eles usufruído da rua? Sentir-se-ão cidadãos cariocas plenos ou serão uma parcela protegida? Sentir-se-ão aptos a fazerem a sua busca da felicidade no Rio de 2020?

Um modelo de cidade deve ser um modelo de fortalecimento da vida em seus aspectos mais elevados: democracia, oportunidades, saúde, educação, economia, cultura e ecologia. Devemos rechaçar radicalmente o marketing, o slogamismo, a mídia política.

O Rio de 2020 pode ser o Rio de 2014, pode ser o Rio de 2016, mas deve ser, antes e prioritariamente, o Rio de Carol, Antonio e Nina: uma cidade de vida real, de pessoas reais, planejada pela razão, eficiente, justa e cheia de sonhos e idéias.

Neste planeta, e por enquanto só temos este, as cidades são nossos lares, são nossos corpos, nossas famílias. São também nossas crianças. Devemos pensar muito bem no Rio de 2020 a começar pelas próximas eleições.

2007/11/10

O menino e o sonho

Os jornais e sites de notícias deram todos com enfoques diversos - heroísmo, risco, graça - a história do menino Riquelme Uesléi Maciel dos Santos, de 5 anos, que salvou a menina de 1 ano e 10 meses de um incêndio, em Palmeiras, cidade a cerca de 200 Km de Florianópolis.
O fato pitoresco e jornalístico está na roupa que o menino usava quando do ato de bravura: uma camisa como o uniforme do Homem-Aranha.
Obviamente tal camisa e a imagem decorrente dela criam um universo de bravura e heroísmo na atitude do menino. E a ser explorado pela mídia.
Algumas notas alertam para o perigo em que incorreu Riquelme, e que não se faça o mesmo em casa! Este é o alerta dos Bombeiros, que pela hora da sua chegada ao local do incêndio encontrariam a menina provavelmente morta.
O menino por sua vez sentia-se protegido pela camisa e, claro, pelo herói; e, sem medo, relata o causo com riso: Você é o Homem-Aranha? Não, sou filho dele!
Essa é uma história arquetípica de como o sonho vence o medo. Usada até em campanhas presidenciais!
Temos em Riquelme, e em seu ato, um belo gesto mítico: o nascimento do Herói.
Riquelme foi "protegido" pelo seu sonho de menino. Ou melhor: Riquelme se expôs movido pelo sonho.
Havia risco, é claro. A antítese do fato seria terrível: duas crianças mortas em incêndio! Tão manchete ou mais. Mas o fato foi a vitória promovida pelo sonho.
Sempre dá certo? Não. Sempre dá errado? Não.
Mas é uma força de movimento tão rara que quando acontece é a observação mais próxima do que podemos chamar de Arte.
Riquelme foi Artista.
Não como os enfadonhos burgueses que povoam as galerias e o circuitinho mas foi Artista da grande aventura humana.
Separados por poucas páginas, estavam lá os outros: traficantes classe alta! Modelos de beleza encarcerados. Corpos magníficos algemados. O fim do quê? Do sonho? Não. O fim da busca de prazer na realidade imediata. O fim da utopia.
Tão diametralmente opostas estas duas notícias estão interligadas: a capacidade de sonhar. E, principalmente, de mover-se em direção a algo desconhecido.
Estas pequenas notas, como a do menino, mostram como este sonhar é importante e como é pouco levado em conta na construção da nossa realidade, ou realidades, e que possam nortear nossa sociedade. Cujos objetivos "reais"- dinheiro, carreira, sucesso, corpos - produzem os atores das outras notas policiais.
E não se trata também de eleger heróis. Ou de se elancar altas morais. Utilizamos ambos, heróis e moral, como quem troca de roupa.
Trata-se de
promover sonhos no plano do indivíduo e suas cercanias - família, escola - e no das instituições.
Trata-se de ter sonhos que possam mover todo um país em direção ao fogo!

2007/03/13

made in china

transcrevo aqui a discussão q se dava por email a partir do envio para amigos e colegas q fiz da seguinte notícia portal vivercidades.



Chineses querem excluir arquitetos estrangeiros dos concursos de projetos realizados no país. O descontentamento interno cresceu – e muito –, quando o público interno constatou o pífio resultado das contratações feitas, no passado recente, sobretudo para projetos-icônicos, que agora estão em fase de conclusão das obras. Por exemplo, a nova Ópera de Pequim, apelidada de 'Ovo Podre', projetada pelo francês Paul Andreu, e criticada por sua implantação urbanisticamente descontextualizada e por seu caráter completamente alheio à cultura chinesa [un-chineseness]; a nova sede da TV chinesa, desenhada por Rem Koolhaas; o estádio olímpico 'Ninho de Pássaro'; e outras pirâmides bilionárias. Para complicar a coisa, todas essas contratações estão sendo hoje consideradas 'superfaturadas', já que os parceiros locais arcam com 50% das tarefas de desenvolvimento dos projetos mas faturam apenas 10% dos honorários. E a chapa esquentou ainda mais quando as 'estrelas internacionais' começaram a ser acusadas publicamente de "arrogantes" e de usar as oportunidades oferecidas no país para fazer "experiências".



Ópera de Pequim: mais uma
Ópera de Pequim: mais uma 'experiência' ocidental na China.
Imagem: AXYZ in www.linternaute.com

comentário de rodrigo azevedo:

Merda de artigo hein?! O problema é só o preço. Mas ainda bem que tem a china pra bancar isso!


comentário
meu:

não sei se é bem uma merda "o" artigo. mas a situação sim.


o fato é q o chineses queriam mainstream. por isso se fizeram valer dos artífcios globais. star sistem arquitetônico e etc. hiperobjetos.

o curioso é o feitiço voltar-se contra o feiticeiro na medida q o mercado deles mudou drasticamente - economica e, principalmente, culturalmente. a ponto de produzirem eles tb bons escritórios. daí a reserva de mercado. ou seja, liberou, agora quer fechar.

do ponto de vista arquitetônico é interessante ver a discrepância cultura/design/imagem entre local e global. aquele documentário mondovino, lembra?

agora, aqui pra gente, longe disso tudo, é curioso ver como a "tipologia paulista" é unipresente em todos os concursos. faça uma pesquisa nos concursos: capes, iphan, biblio puc, faculdade de medicina, memorial republica, museu tolerancia, tudo igual!

claro q dinheiro dá opção. mas a ausência dele não deveria dar monotipias.

o q fazer com o dinheiro é q é a pergunta.

mas tenho cada vez mais a impressão de que esta pujança q a china cria tem focos errados , como tentando criar um modelo neo-ocidental. e repentindo os mesmos erros.

quando tivermos dinheiro o que e como faremos?

comentários de
pedro rivera:

a crítica sobre experimentações é boa.
na europa ninguém dá esta liberdade a eles.
mas é também uma forma da china fazer seu marketing.
este projeto do ovo é uma bela merda

2007/02/08

o inferno que nos consome

O poço não tem mais fundo.
É uma boca infernal que consome a todos nós.
Ontem consumiu o menino João Hélio Fernandes. Amanhã quem poderá ser? Quem estará sendo assassinado neste momento enquanto lê-se o jornal?

Nunca antes na história deste país a bárbarie assolou famílias, crianças, inocentes como agora. Nunca antes na história deste país a morte passou a imperar sobre nosso futuro. Nunca antes na história deste país fomos tão apáticos e tolerantes com a desordem, com o caos, com a corrupção, com a violência. Pois esta boca infernal está nos mastigando paulatinamente, triturando nossas crianças, moendo nossas esperanças e promovendo em nós uma admiração pela morte e por tudo que é putrefato e sórdido.

Precisamos urgentemente fazer um exercício: coloquemo-nos no lugar do menino arrastado até a morte. Ou coloquem um filho ou ente amado. Ou imaginem até um desconhecido. Um alguém. E sintamos o horror desta morte. E a sensação - incapaz de sequer de resvalar - do horror dos parentes do menino morto. E precisamos chorar.

Até quando não vamos perceber a relação estrutural desta e outras mortes, da bárbarie, da violência, com a corrupção de congressistas, com super salários do Judiciário, com a impunidade para os fraudadores e sonegadores, com o desrespeito com o meio-ambiente, com o avançar o sinal vermelho.

O Brasil está sendo arrastado para a morte.

2006/10/26

the truth


[Image: A related graphic, from the Times Online].



Não sei se motivado pelo tour do Al Gore pelo mundo alertando para obviedades ambientais inconvenientes - An Incovenient Truth - que qualquer um do lado de baixo do Equador ou do lado de lá de Greenwich, ou pela hipótese apresentada pela NewScientist deste mês de desaparecimento da civilização humana da face da bolinha azul (meio marrom), mas o grande fato do mês do Instituto DataWash para blogs e cultura web é que o mundo vai acabar mesmo!
O alerta ambiental soa como alarme de garagem de prédio, toca, toca, e mesmo assim passam na frente! Tamanha afronta agora é fato!

De 10 revistas semanais em banca de jornal, 8 são dedicadas ao tema. Aqui e lá. Dos blogs de arquitetura então nem se fala! Simplesmente 100% falam sobre possiblidades avassaladoras de irmos dessa para melhor.

Que arquiteto adora um terror já pudemos discutir e comprovar aqui. a simples possiblidade libidinosa de adulterarmos a face do planetinha com predinhos, e design, e arrojos, e texturas, e - ohhhh, so exciting! - peles, aplicando recursos descabíveis para produzir ícones de hiperdesign é de lascar! O que é uma chinchila pra quem se arrepia com um casaco de "pele" sobre a pele?
O que é uma vaquinha pra quem baba diante de uma bela picanha? Esse objeto de desejo resvala na morbidez. Então nada mais bacana do que uma tábula rasa na humanidade e deixar lá só os predinhos bacaninhas como paisagens de propaganda de carros offroad. Afinal, human being it´s so fucking disgusting!

A verdade, me parece (logo é minha) , é que o exercício do comedimento e da inação é deveras exaustivo diante de cenários tão maravilhos de aparições fugazes de delírios capitalista de 30 segundos. A operação necessária para que os edifícos possam ter vida e ser abrigo desta vida resulta incompatível com as necessidades visuais minímas estabelecidas pós-SMLXL, pós-Netherland Design, Pós-Koolhaas. Qual passa a ser, então, o real comprometimento da arquitetura? A coisa pela qual ou a coisa em si?

É urgente que essa Nova Construção ocupe o espaço paradoxalmente lançado pela própria estratégia de volatização do homem. No vácuo dos corpos desnessários surgem ruínas que tornam a ter vida pelo enraizamento da vida bruta.

Princípios unicelulares regenerativos diante de enzimas de longa cadeia pútridas.


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